Menu
Galeria
PORCIÚNCULA DE MORAES

ensaios e depoimentos

Porciúncula de Moraes: por paixão, a pintura

O desejo de Porciúncula de Moraes por ampliar seu conhecimento sobre o universo da arte – manifestado desde as primeiras lições que recebeu ainda muito jovem em São Luís e em Belém - foi realizado em 1918, quando recebeu uma subvenção para estudar, concedida pelo Congresso do estado do Maranhão que, numa sessão inédita sobre o assunto, decidiu estimular as “raras vocações artísticas” da cidade e premiar três jovens artistas, entre eles o escultor Celso Antônio e Porciúncula de Moraes.

Nesse mesmo ano viajou para o Rio de Janeiro, então capital federal e palco de importantes acontecimentos como a eleição para presidente da República, a Insurreição Anarquista, uma greve geral e a pandemia de febre espanhola – que também assolou outros estados do país. Além das modificações urbanísticas que ocorreram no início do século XX, alterando sua aparência, a cidade se transformaria mais uma vez com a demolição do morro do Castelo em 1921, favorecendo a abertura de grandes vias e a posterior criação do aterro do Flamengo, entre outras. Este foi o ambiente urbano no qual Porciúncula de Moraes passou a viver a partir dos 18 anos de idade.

Sob a ótica do ensino artístico, o Rio de Janeiro abrigava a mais importante instituição oficial do país, a Escola Nacional de Belas Artes - ENBA, que seguia os valores tradicionais no ensino artístico e, à época, era dirigida pelo pintor João Batista da Costa. Na 25ª Exposição Geral de Belas Artes (1918), salão anual em que os artistas apresentavam suas obras, a grande medalha de ouro de pintura foi concedida ao pintor Antônio Parreiras, que concorreu juntamente com os artistas Garcia Bento, Pedro Bruno, Rodolfo Chambelland, Georgina de Albuquerque, entre outros. É possível observar que as experiências artísticas inspiradas na arte moderna, em especial o Impressionismo, do qual Eliseu Visconti foi o mais destacado representante no Brasil, eram ainda restritas a poucos e sua aceitação encontrava resistências; eram raros aqueles que buscavam vivenciar outros estilos já potencializados no exterior, como o expressionismo e o cubismo, o que contribuía para a fraca repercussão das novidades no panorama artístico brasileiro da época.

Porciúncula de Moraes optou por fazer aulas livres na ENBA e frequentou o ateliê Lido, dos irmãos Bernardelli, em frente à praça do Lido, em Copacabana, tendo estudado pintura com Henrique Bernardelli, artista renomado, professor da escola de 1891 a 1906 e que, ao sair da instituição, continuou a lecionar em seu ateliê. Porciúncula cursou, também, as classes de modelo vivo no Liceu de Artes e Ofícios, sob a orientação de Eurico Alves, mestre de outros artistas como Oswaldo Teixeira, Armando Vianna e Hans Steiner.

Das aulas com o mestre Henrique Bernardelli, Porciúncula apreendeu muitas lições, e com o tardio impressionismo brasileiro, absorveu o interesse pela pintura ao ar livre, pela luz e seus efeitos, para criar, como ele próprio dizia, uma pintura “tão longe dos modernos, como dos clássicos”.

Na busca por pintar os efeitos de luz em suas paisagens - um de seus temas preferidos juntamente aos retratos de família e pintura de flores - utilizou a tinta a óleo em pinceladas soltas e contornos pouco definidos, bem como praticou a aquarela com a característica leveza que esta técnica confere às formas e ao conteúdo.

O artista participou de diversos Salões Nacionais de Belas Artes, de mostras no Liceu de Artes e Ofícios e de outras exibições coletivas e individuais. O Museu Nacional de Belas Artes conserva em seu acervo o óleo Favelados, de 1955. A vivência artística de Porciúncula de Moraes foi guiada pelo inesgotável interesse pelas particularidades do Impressionismo, que buscou conhecer e explorar ao longo de sua carreira, sob uma perspectiva muito pessoal. Dedicou sua vida ao ofício de professor de desenho e, sobretudo, à pintura, sua grande paixão.

Laura Abreu
Historiadora da arte e Curadora
Abril 2017




Como um impressionista brasileiro, mestre Porciúncula de Moraes sai do atelier e retrata nossa cidade com céus “com leque da alegria”.

Seu olhar era franco e generoso. Penetrante e nos posta perguntas também. Senti isso ao fotografar seus autorretratos. Suas obras são luminosas e fotogênicas. Inesperados ângulos da Lagoa Rodrigo de Freitas com crianças brincando na relva e lavadeiras, pondo roupas coloridas pra corar em suas bordas, nos remetem a uma época de paz e harmonia da Cidade Maravilhosa, que não volta mais.

Marco Rodrigues
Fotógrafo e marchand de obras de arte.




SOB A LUZ BRASILEIRA

No Impressionismo desde 1920:
uma Visão Panorâmica sobre o Imaginário Artístico de Porciúncula de Moraes

Pintor, aquarelista, ceramista, escritor e poeta brasileiro, com suas paisagens, naturezas-mortas, retratos, auto-retrato e composições com temas diversos, tendo a expressividade da cor como motivo primordial, Porciúncula de Moraes filiou-se, representativamente, à corrente impressionista brasileira, iniciada por Eliseu Visconti e Belmiro de Almeida, no início do século XX. Criticando a orientação acadêmica predominante no ensino oficial da pintura na Escola Nacional de Belas Artes, e difundida sistematicamente no Salão Nacional de Belas Artes, Porciúncula assimilou e exprimiu verazmente o que havia de mais genuíno no impressionismo brasileiro. Com grande e densa determinação de renovação, criou uma obra totalmente direcionada à valorização artística da luz brasileira.

Expôs e contribuiu para a evolução desta tendência, procurando sempre expressar a peculiaridade pictórica da nossa luz. “Só vi uma luz tão bela , cristalina e rica de matizes como a nossa do Estado do Rio de Janeiro, numa bela manhã em Amsterdam: terra de Rembrandt!...”, disse ele em seu livro Palheta Sonora (1980). A respeito do seu quadro Gramado em Festa, bem luminoso, com tons escuros para contraste, comentou o célebre pintor e professor Rodolfo Amoedo: “não pinto assim, com essa transparência e leveza de tons, mas o reconheço como um belo trabalho e voto premiação que o distinga”.

RAYMUNDO PORCIÚNCULA DE MORAES – filho de José Alípio de Moraes, magistrado, músico, compositor e regente, e de Teresa dos Anjos Porciúncula de Moraes, professora – nasceu na Vila de São Bento, Maranhão, em 6 de maio de 1899.

Manifestando desde muito cedo vocação para pintura, depois de praticar esta arte em São Luis, Maranhão, e em Belém do Pará, veio, em 1918, ainda jovem, para o Rio de Janeiro, onde ingressou no Liceu de Artes e Ofícios e estudou “Modelo Vivo” com o pintor Eurico Alves. Mais tarde, como aluno livre na antiga Escola Nacional de Belas Artes, foi orientado pelo professor de pintura Henrique Bernardelli, e pelo irmão deste, o escultor Rodolfo Bernardelli. Passou, então, a freqüentar o Atelier do Lido, dos irmãos Bernardelli, onde reuniam-se os expoentes da arte brasileira.

Em 1920, foi aprovado no Salão Nacional de Belas Artes com o quadro O Último Beijo, “grande paisagem fixando o anoitecer, o último beijo do sol nas montanhas, pintado de Manguinhos, vislumbrando toda a paisagem até a Tijuca”. Desde então, Porciúncula de Moraes tornou-se expositor assíduo naquele Salão, recebendo Menção Honrosa de segundo grau, em 1924, Medalha de Bronze em 1925 e Medalha de Prata em 1954, com o quadro A Sesta.

Em 1923, 24 e 25, foi um dos organizadores do Salão da Primavera de Impressionismo, realizado no Liceu de Artes e Ofícios. Em 1939, participou de mostras coletivas nos Estados Unidos e em Rosário, na Argentina. Em 1940, no II Salão do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, obteve Medalha de Bronze, e, no mesmo ano, no Salão de Artes Plásticas da Associação dos Artistas do Rio de Janeiro, logrou a Medalha e Prata. Realizou exposições individuais em várias cidades brasileiras.

Em 1963, obteve Grande Medalha da Academia Brasileira de Belas Artes pelo conjunto de sua obra. Obteve também, no mesmo ano, a Grande Medalha de Honra do Salão Internacional de Corumbá, e a Grande Medalha de Honra da Sociedade dos Artistas Nacionais.

Além de ter sido crítico de arte e ensaísta em O Jornal, no Rio de Janeiro, publicou os livros: Estética Desfigurada em 1967, e Palheta Sonora, em 1980, sobre pintura, poesia e música. Há referências biográficas sobre o artista no Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos, editado pelo Instituto Nacional do Livro, do Ministério da Educação e Cultura, e em Artistas Pintores do Brasil, publicado por Teodoro Braga.

Foi membro fundador da Sociedade Brasileira de Belas Artes; Membro da Academia Brasileira de Belas Artes; Membro da Academia Anapolina de Filosofia, Ciências e Letras de Anápolis, Goiás.

Foi nomeado, por concurso, desenhista-chefe do Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, exercendo esta atividade até a aposentadoria. Foi também professor de desenho da rede de escolas públicas de segundo grau do Estado do Rio de Janeiro e deu cursos livres de arte na Escola Nacional de Belas Artes e em seu Atelier. Faleceu em 14 de novembro de 1981, no Rio de Janeiro, deixando uma obra de inestimável valor artístico e histórico, que merece ser restaurada, recuperada, reavaliada e divulgada.


João Carlos Cavalcanti
Rio de Janeiro, novembro de 1993.