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PORCIÚNCULA DE MORAES

poesia

AUTO-RETRATO

Nasci pintor, e não quis ser mais nada.
Deslumbrado da vida! ... E sem ter vício,
Do belo construí o meu ofício.
Sem temor, amo a vida trabalhada...

Tenho afeição, até exagerada,
Pela criança, ainda no início
Do andar, a mover-se em exercício...
Só desejo trazê-la carregada.

Oro a Deus... cordial sou e pacato.
As minhas relações sirvo-as em paz;
Desencanta-me só quem sai do trato...

Autofigura deixo nos anais.
Memora aos meus, meu nome em todo o ato:
Raymundo Porciúncula de Moraes.


EVOCAÇÃO

Foi em maio, minha vinda era esperada
e minha mãe rezava com fervor:
- Que este meu filho venha a ser pintor!...
Ela pedia à Virgem Imaculada

Eu vim, terras estranhas viajei.
Bem pobre, a cumprir esta missão
Só tive um forte apoio: a vocação.
Fora da arte, tudo desprezei...

Trabalhei incessante como escravo,
sem pensar se era humilde ou se era bravo,
pintei céu, gente, flores, mata e água...

desdobrei minha vida em quadros mistos,
por quem mais desejei que fossem vistos,
Deus a chamou... e esta é minha mágoa...

(À minha mãe Teresa dos Anjos Porciúncula de Moraes)


SER ARTISTA

Ser artista é não ser indiferente...
A tudo de comum que encerra a vida;
Ser sensível ao belo, e o que sente,
Transmitir para todos: é sua lida.

Sendo aranha, obreira permanente,
Constrói teia, a caça requerida,
E a abelha, faz mel constantemente;
Ambas trabalham para ter comida.

O artista, é como ser vivente,
Antena desfraldada contra as dores,
Que venham consumir o paciente...

De recompensa, quase indiferente.
Exalta e revigora! Formas! Cores!
Vai mostrando o que é belo a toda a gente.


PAISAGEM CARIOCA

Foi Manguinhos, com parque e dependência,
Meu campo experimental de plena luz;
Bosques, mares de esplêndida aparência,
Bem escolhidos por Oswaldo Cruz.

Paisagens variadas com frequência,
Ao pintor que estuda bem seduz;
Partia o meu trabalho entre a ciência...
E pintura ... a paixão que me impus.

Lá, crepúsculo vi... anoitecer!
Luzes verdes do monte para o cume!
... Espetáculo belo! A estarrecer:

Luzes no céu, bailando no negrume?!...
Deslumbrado fiquei, e sem saber:
O que era estrela ... ou era vagalume.


PAISAGEM AMAZÔNICA

No Pará, em Belém, quase na mata...
Assisti espetáculo empolgante:
Árvore, com folhagem triunfante!
Enorme e bela!... As outras desbarata.

Sopro violento as folhas que lhe arrebata,
Todas de vez! ... Voando num instante!...
Nenhuma cai no chão por inconstante...
Tal coisa jamais vira até esta data.

Galhos nus, balançando em despedida,
Com tal separação abrupta e crua,
Por não poderem mais se ver na vida.

Folhagem de ouro! Manto que flutua,
Levado pelo vento em investida...
Deixando a haste triste... e toda nua!


INFINITO

Amo a vida! Com toda natureza!
O riso, quando aflora nos semblantes
Das crianças... e outros semelhantes,
Já isto, constitui minha riqueza.

Criaste ó Deus, um mundo de beleza:
Mulheres com perfis irradiantes,
Flores, e borboletas circundantes...
Artistas que exaltam com braveza:

Em som e cor e gosto singular,
Com tendências de arte em profusão,
Criam o mais que o talento pode dar...

Olho o mar, céu, estrelas e a amplidão!
... Com tantas formas belas para amar,
E só me deste, ó Deus! ... Um coração.


FALANDO AOS ANJOS

Só aos anjos eu quero dizer,
Que esta vida não é só sofrimento,
Se sofremos, acaso, um momento,
Temos horas de imenso prazer.

Desde o instante em que teu perfil róseo e fino,
Delicado e sutil como não vira então,
- procurar pelo mundo outra joia era em vão –
Compreendi bem o nosso destino...

Desabrocha da vida um constante esplendor
Da alegria que enleva e que nutre o meu ser;
Não há mágoa nem mal que me faça descrer,
Se teu riso desdobra-se em flor.

De mãos dadas, seguimos, confiantes, querida,
E vencendo os caminhos, alegres em paz:
Uma estrada de flores veremos atrás,
Se volvermos o olhar ao passado da vida;

Sob um céu marchetado de luz e de cor,
Entre enlevos e preces seguimos a três
Existências queridas, e mais, cada vez...
Nosso sonho de afeto e de amor.

Deus que julgue em perene juízo,
Da celeste mansão que conduz:
Há na terra o desgosto da cruz...
Mas, existe, também, paraíso.

(Letra de valsa dedicada à minha esposa Cecy, pelo seu aniversário em 6.11.1950)

CAMINHO VERDADEIRO

Há tempos que desejo ter um verso,
Que exalte o belo e toda perfeição,
Mas confesso-me sem inspiração...
Por dissidências tais neste universo.

Vejo agressão na rua por perverso!...
Desintende-se a nova geração!
Mas meu Deus! Por que causa, que razão?
Em que lugar está o senso imerso?

Pelo avanço da tecnologia,
Ou talvez, só por falta de dinheiro,
Ou menos pobres de ideologia?!...

Volta o feitiço contra o feiticeiro.
Querem a ordem matar por tirania,
E esquecem Deus!... Caminho Verdadeiro.